sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Queda e ascensão de um cachorro velho

Capítulo 4 - Principia philosophiae naturalis ex aeternitate

“Anol Shalom
Anol sheh lay konnud de ne um, shaddai
Flavum
Nom de leesh
Ham de nam um das
La um de
Flavne...
We de ze zu bu
We de sooo a ru
Un va-a pesh a lay
Un vi-i bee
Un da la
pesh ni sa
Un di-i lay na day
Un ma la pech a nay”

Now we are free - Enya

E mais uma vez o cachorro velho fez o que tinha de fazer; encaixotou toda a sua vida, a empilhou e esperou os carregadores junto a seu gato. E se foi da cidade que nada de bom o trouxe exceto uma experiência amarga como fel. Pela primeira vez ele teve de aceitar o fato de que nem tudo depende da maneira com que se olha. A cidade tinha algo de horrível, opressiva. Mas ao mesmo tempo fraca e torpe, tão fraca e torpe quanto, em ultima medida foram as ações das pessoas fracas e torpes que passaram por seu caminho. Mas passaram. Ele se foi da cidade como se estivesse abandonando uma roupa cheia de pulgas e sangue.
Não era a primeira vez que o cachorro velho se mudava de cidade. E novamente, deixava pra trás o lugar com uma consciência de que não estava fugindo de absolutamente nada, posto que não tinha nada a deixar ou de que fugir. No máximo alguns pouquíssimos bons amigos. Mas amigos resistem ao julgo da distância e do tempo, ao contrário de amantes. E o cachorro velho aprendeu da maneira mais amarga que uma amante distante é na verdade um erro infantil. Carregou com ele os amigos e a sabedoria azeda das experiências e matou todo o resto. Todos os execráveis, os vagabundos e papos furados, os covardes e suas promessas jamais cumpridas. Todos. Ele não mais teria de ser conivente devido às circunstâncias. Que os sórdidos continuassem a racionalizar como achassem mais conveniente sua profunda falta de caráter. Quem importa os sórdidos, se a eles está reservada uma vida inteira de angústia e frustração, por mais que a vida lhes proporcione coisas que não merecem? Tais sórdidos, como aqueles que o cachorro teve de suportar, sobretudo em seu oficio, não mais teriam poder sobre ele. NUNCA mais.
Ao chegar a seu novo velho destino, foi com algumas promessas de futuro. Claro, ninguém sai de onde o cachorro saiu totalmente ileso de vícios tolos. Mas chegou; o que já é muito mais do que se possa dizer de todos os covardes que passaram por ele. E se há algo que é certo dentre os covardes é que, no fundo, eles sabem o quão limitados são. Mas adoram fantasiar sua realidade de cela com fotos de realidades outras, numa seara se ilusões tão coloridas quanto tristes... Posto que no fim, suas vidas vão ficar fáceis e medíocres antes que possam lutar pelo que querem. E eles vão acreditar que lutaram, mas na verdade sabem que tudo o que fizeram foi se adaptar a sua celinha de 2x2 enquanto corrompiam com mentira e podridão seus melhores dias.
Isso é dito por ser exatamente o que o cachorro velho nunca aceitou. Ao aceitar o desafio de enfrentar mais uma etapa de qualificação íntima ele percebeu uma de suas derradeiras verdades; verdade essa que esclareceu muito de sua ausência de hesitação chamada por muito de coragem dos tolos: Ele JAMAIS fez nada obrigado. Toda vez que se via obrigado a aceitar uma obrigação que seu instinto recusava, ele reagia muito violentamente. Era um sintoma. Um sinal alarmante de que cada vez que isso ocorria, ele estava sendo obrigado ao erro. Mas erro em que? O fato é que essa violência não era correta. Apenas os covardes travestidos de bonzinhos ou perfeitos idiotas agem de maneira definitiva sem saber as conseqüências a longo prazo de suas decisões.
As leves promessas se provaram falsas (mas que surpresa não?). Mas foi para o melhor, posto que essa tendência a acreditar em promessas era algo que deveria ficar junto com tudo o que deixara na cidade que abandonou. E assim o foi. O local que escolhera era no mínimo... diferente. E não pela síndrome da cidade grande, posto que o cachorro já fora vacinado contra a febre do entusiasmo anos antes. Mas havia algo diferente; a mera energia era diferente, não só a promessa de que agora teria no mínimo pra onde recuar e se recompor para o combate. O local continha promessas que não dependiam do ego estúpido de gente tapada e mimada. Claro, tais cânceres estavam presentes, mas bastava um latido para sumirem.
Crescer por crescer é o paradigma da célula cancerosa e o cachorro velho sabia muito bem disso. Ficara fácil pra ele reconhecer quem estava bom e eficiente na arte podre de ser ruim, sobretudo se essa tendência se manifestasse em si mesmo. Esse era um detalhe importante; a razão pela qual o cachorro velho sempre se menosprezou estava no fato de sua alma o reprovar. Mas... como? Tipo, sua.... ALMA estava reprovando sua racionalidade? Antes de pisar nesse novo tabuleiro onde ele não era mais mero peão ele havia tido provas. Provas de que havia algo além do que suas assim chamada sabedoria, arte e ciência conseguiam contemplar. Seria possível?
Logo certas coincidências começaram a se repetir, e repetir. Se a coincidência se torna tendência, ela não mais é coincidência. O acaso prima pela exceção,e não pela regra. Como sua imaginação poderia falar tantas coisas antes dele adormecer que ele não só não sabia, mas que se confirmaram? Se estava enlouquecendo, sua loucura pareceria mais consciente que ele próprio. Sua maior lição de humildade estava para começar, posto que só o ego daquele que sabe que é passageiro é capaz de negar o eterno. O cachorro velho tinha motivos o suficiente para deixar de acreditar na besteira de tentar controlar seu mundo. Ele tinha sim escolhas, e as estava fazendo. Mas ele também alem de mão era peça no tabuleiro. E era reprimido cada vez que tentava dar o cheque-mate, como se esse não fosse o objetivo final daquilo que ele era arrogante o suficiente para chamar de jogo. Se um jogo era, não era pra ser.
Palavras bonitas só servem pra maquiar a verdade se a mesma precisa de maquiagem. Só tem direito de ser orgulhoso quem tem do que se orgulhar. O cachorro velho era cachorro velho por que não tinha. Vencer desafios é fácil; saber pelo que lutar não. Os acasos que acasos não eram logo o encaminharam para seu caminho de fato. E só o conseguiram por que o cachorro finalmente se permitiu.
Não se pode de fato revelar o que houve e como começou posto que fazem parte de um mistério; não aquilo que está por se revelar, mas sim por que sua natureza é mistério. Uma ordem muito superior a racionalidade, não por ser ilógica, posto que mesmo a lógica é falha ao observar argumentos paradoxais mas ainda assim manifestos. O cachorro velho finalmente entendeu. O que lhe apareceu ao acaso havia sido planejado, e as forças que se manifestavam nele não eram ilusões de sua percepção, como todos os cínicos alegavam com medo de admitirem também serem peças no tabuleiro. Ele percebeu que tudo o que via, sentia, previa e fazia desde criança era real, não fantasias... as quais ele chegou a enquadrar até mesmo o amor.
Ele não era comandado, mas sim guiado quando se permitia. Os sinais agora eram claros, e ele não os aceitava por precisar de muletas ou de amparo, mas por que não havia como negar o que estava presenciando. Se fossem sua imaginação, então sua imaginação era mais real que fértil. A filosofia não era uma arte que podia se enquadrar em sua vida, mas sim um conhecimento que contava a história do pensamento; pensamento esse que forçosamente moldara o mundo em que vivia. E a doutrina que agora se apresentava a ele oferecia respostas a ele que não só explicavam tudo pelo que passara, mas oferecia também uma chance de fazer aquilo que ele sabia que era sua missão: Ajudar a quem precisa.
Logo, passada sua vaidade, ele pode ter a chance de finalmente se regenerar. Regeneração essa que não poderia vir de nenhuma outra lógica, posto que não era nem nunca fora seu ego ou sua racionalidade que fora ferido, e sim sua essência. Aos poucos tudo foi se acalmando, ficando finalmente e verdadeiramente sereno. Não mais das circunstâncias dependia seu futuro e sua felicidade, e sim de sua capacidade em se não complicar e deixar fluir por si toda a energia que ele sempre tivera o dom de manipular, mas inutilmente tentou manipular em favor de seu ego, nunca de si próprio. E não, o ego e o ser não são a mesma coisa. Ego é uma pequena parte da realidade de se estar vivo que subverte e desvia a energia para fins estúpidos.
As lembranças eram reais, contudo, eram de outra realidade. Uma realidade enfrentada por sua essência a muito tempo atrás. Muito mesmo, mais do que ele gostaria de admitir, afinal, esse tempo era a prova da gravidade de seus erros. A razão pela qual ele era, ainda que intransigente, incapaz de mal ou vingança era justamente por que ele foram MUITO capaz disso antes. E o motivo pelo qual ele não podia não só negar ajuda mas ia até os necessitados é simples: Ele havia sido a causa de problemas (para usar de um absurdo eufemismo) em proporções homéricas. Tudo que o cachorro velho então era não passava de reflexo do que havia feito. Portanto, karma, em seu mais intenso nível. Intenso, pois sua responsabilidade é então de fato colossal; ele não podia remediar o mal feito já que os tempos eram outros, mas teria que trabalhar num espectro que era o exato oposto do que havia feito com tanto talento e verve. Seu sofrimento ocasional ocasionado por si mesmo. Contudo, a culpa se mostraria uma cilada ainda maior mais adiante.
Sua disciplina marcial o fizera mais consciente de que a violência é apenas uma demonstração animalesca de ignorância, em que guerra não fazia ninguém grande. Portanto não era passível de existir algo como um “grande guerreiro”. Por extensão, ele passou a negar a idéia de “bom combate”, e estava redondamente enganado. Sua doutrina, assim como a nova arte marcial a que passou a se dedicar demosntrou que o bom combate é interno antes de tudo, depois de manifesta no externo com intuito de harmonização da situação, não na derrota incondicional de um inimigo. E que ter inimigos é se render a negatividade de maneira tão solicita quanto solicitar da negatividade qualquer benesse para o ego.
Esse capítulo acaba, mas não junto com o ano ou com algum ciclo e sim no inicio de um. “Cessem do grego e do troiano” todos os versos macerados. Cessem os debates invisíveis com prisioneiros apagados de argumentos e chances de redenção. Cessem as dores do passado, pois agora são entendidas e dominadas. Que se acabem os ouvidos à tolos que se acham detentores das lógicas que regem a vida, posto que se realmente as detivessem, não precisariam divulga-las para serem reconhecidos por roedores de baixa índole. O escudo fora levantado. A flecha que representava desde sempre o destino do cachorro velho tivera seu curso corrigido. E a ascensão pode finalmente começar, rumo a algo superior.

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