quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Queda e ascensão de um cachorro velho

Capítulo 1 - Compreensão

”Era um cão estranho, sorria sem motivo”

É plenamente feliz. Bem, hoje é fácil, é simples. Mas não foi sempre assim. Quanto mais inteligente ele ficava, quanto mais gente ele interagia, quanto mais longe ele ia, mais livre ele se achava. E achava errado. O libertino dito livre era na verdade uma falha endêmica; era cruel, arrogante e se deixava levar facilmente pela negatividade. Suas chagas, ao invés de tratadas eram cutucadas. O passado, ao invés de ser esquecido ou relegado a um ostracismo condizente com o que não mais serve, era constante e insistentemente lembrado. Era tão forte como todo o cão adulto, ainda que frágil como tudo que está fora de equilíbrio.
Assim ele era.
Ele via. Ele SEMPRE via e não sabia o que pensar. Ele sentia, mas negligenciava seu instinto em nome de um conforto estúpido. A natureza determinada pertencente a todos os da sua raça era mal-direcionada... Ele afastava, usava e descartava, se fazendo de injustiçado ao receber o troco da eternidade por sua falta de consciência. Era um sábio tolo, não um tolo sábio.
O fato é que o cachorro velho não estava pronto e ainda assim se metia a querer sentir e pensar os que os outros cães faziam por que podiam. Ele não. O acaso o surpreendia, mas ele logo estragava tudo e começava a favorecer o outro lado, o lado feio de todo caminho: a expectativa. Fazia planos cegos que iam muito alem do que sua visão tapada podia alcançar. E sim, você acertou... Ele se desapontava. E praguejava contra a eternidade por conta de suas próprias falhas de caráter. Existe um diferença simples entre esperança e expectativa: A expectativa é apenas desejar insistentemente o que se quer, sem se questionar ou refletir se de fato precisa ou é certo o que se quer. Já a esperança é o dom mais divino da existência dos cães: Não é esperar pelo que se quer, mas estar pronto pelo melhor sempre, não importando as adversidades.
Hahahahhahahahhahaha
E assim como todo ateu que é ateu por conta de uma covardia ao não ser humilde para aceitar que era submetido ao universo e não ao contrário, ele vivia na obscuridade merecida. Não que a luz compreenda ter fé ou acreditar em algo. Na verdade o escuro é condição, não situação. Vingança era um de seus estúpidos motes, mesmo sabendo que sua essência original o impedia de fazer tal coisa. Mesmo que tentasse, o máximo q podia fazer era magoar os que o queriam bem. Era o tipo mais sujo de dependente; o que alega ser livre e auto-suficiente. Era um cão raivoso. Uivava para luas erradas. E assim, a Lua Bonita se interpôs em seu caminho.
Lua Bonita soava como uma promessa de futuro bom que ele acatou com certeza. Apenas os tolos aceitam a certeza alheia quando a certeza de si mesmo é incerta. Era mentira, claro. Mas ele sonhou. Não tardou para a mentira esmigalhar sua perna traseira. Ele se recusava a acreditar em seus olhos, focinho e instinto. Vê?
Praguejou contra a Lua Bonita sem parar; manco se comprazia da penúria que a Lua Bonita teve de amargar, que infelizmente conta de sua natureza de malicia errada ainda amarga. Como todo cão que tenta escapar de seu conforto em nome de aventura, voltou com o rabo entre as pernas para sua pouca e distante certeza. Mas esse conforto não mais o pertencia e ele sabia disso. Mas usava desse conforto sem escrúpulos. Não seguia em frente e aprisionava os outros cães a sua vontade canalha.
Encare isso: Só recebe coisas ruins quem envia coisas ruins. Assim é, assim foi e assim SEMPRE será. O sempre tem peso especial para o cachorro velho nesse inicio. Só depois de muito amargar a própria ignorância ele mudou; e só o fez por que no fundo algo no eterno ainda ama seu uivar. Ele sabe que O Maestro o quer bem e o quer feliz, como quer a todos seus músicos. Mas...
Ele ainda era um fraco; suas forças eram desperdiçadas ao ponto de se anularem para não o exaurirem. E o cachorro nada podia fazer senão esperar por piedade, assim como todos os cegos como ele. De que serve um cachorro velho e cego, pergunto eu. Nada. Logo a lógica o fez encontrar um anjo; um Anjo Quebrado. Como se deram bem, e como foi fácil se apegar à idéia de algo que via o mundo assim como ele. E assim, o cachorro velho foi novamente seduzido pelo incerto. E novamente, se atirou do precipício dos tolos. Ele era um cachorro cego, e cachorros cegos e velhos não voam. Ele amargou a idéia de ser querido por algo ainda mais fraco e confuso que ele. Outro cão, um cão quebrado que nunca aprendeu a se concertar. Correu em direção a alguém que construiu em torno de si uma muralha retardada, tachando a todos que se aproximavam como parias iguais aos seus antigos carrascos.
E é claro, o cachorro velho falhou em sua empreitada. Não foi aceito e sim vilipendiado. Praguejou contra sua sorte novamente, olhando com um olhar de superioridade não-merecida para o Anjo Quebrado. Falou a todos o quanto fora injustiçado. Sim, hoje o cão sabe que não foi injustiçado -quase- nunca, mas não foi assim até então. Ele continuou caminhando, sem levar em conta a incrível sorte que tivera ao não ser preso dentro da muralha e por ter saído ileso de algo tão arriscado. Mas... como todos os cachorros velhos, cegos e errados, não tardou a aparecer para ele uma dívida. Esse curto primeiro capítulo termina quando o cachorro já deveria estar consciente, mas de consciente ele NADA tinha. Já era tempo de estar firmado, mas ele ainda era um cretino.
Seguia doutrinas boas. Tinha o coração direcionado ao bem... Mas o mal que fazia a si mesmo retumbava na eternidade como um tiro de canhão: o tipo de sinal que inicia todas as batalhas inúteis. O cachorro velho já havia conhecido o bom e o sublime da vida. Tinha inteligência, ainda que não sábia. E foi assim que ele se alistou para sua pior batalha...

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