sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Queda e ascensão de um cachorro velho

Capítulo 4 - Principia philosophiae naturalis ex aeternitate

“Anol Shalom
Anol sheh lay konnud de ne um, shaddai
Flavum
Nom de leesh
Ham de nam um das
La um de
Flavne...
We de ze zu bu
We de sooo a ru
Un va-a pesh a lay
Un vi-i bee
Un da la
pesh ni sa
Un di-i lay na day
Un ma la pech a nay”

Now we are free - Enya

E mais uma vez o cachorro velho fez o que tinha de fazer; encaixotou toda a sua vida, a empilhou e esperou os carregadores junto a seu gato. E se foi da cidade que nada de bom o trouxe exceto uma experiência amarga como fel. Pela primeira vez ele teve de aceitar o fato de que nem tudo depende da maneira com que se olha. A cidade tinha algo de horrível, opressiva. Mas ao mesmo tempo fraca e torpe, tão fraca e torpe quanto, em ultima medida foram as ações das pessoas fracas e torpes que passaram por seu caminho. Mas passaram. Ele se foi da cidade como se estivesse abandonando uma roupa cheia de pulgas e sangue.
Não era a primeira vez que o cachorro velho se mudava de cidade. E novamente, deixava pra trás o lugar com uma consciência de que não estava fugindo de absolutamente nada, posto que não tinha nada a deixar ou de que fugir. No máximo alguns pouquíssimos bons amigos. Mas amigos resistem ao julgo da distância e do tempo, ao contrário de amantes. E o cachorro velho aprendeu da maneira mais amarga que uma amante distante é na verdade um erro infantil. Carregou com ele os amigos e a sabedoria azeda das experiências e matou todo o resto. Todos os execráveis, os vagabundos e papos furados, os covardes e suas promessas jamais cumpridas. Todos. Ele não mais teria de ser conivente devido às circunstâncias. Que os sórdidos continuassem a racionalizar como achassem mais conveniente sua profunda falta de caráter. Quem importa os sórdidos, se a eles está reservada uma vida inteira de angústia e frustração, por mais que a vida lhes proporcione coisas que não merecem? Tais sórdidos, como aqueles que o cachorro teve de suportar, sobretudo em seu oficio, não mais teriam poder sobre ele. NUNCA mais.
Ao chegar a seu novo velho destino, foi com algumas promessas de futuro. Claro, ninguém sai de onde o cachorro saiu totalmente ileso de vícios tolos. Mas chegou; o que já é muito mais do que se possa dizer de todos os covardes que passaram por ele. E se há algo que é certo dentre os covardes é que, no fundo, eles sabem o quão limitados são. Mas adoram fantasiar sua realidade de cela com fotos de realidades outras, numa seara se ilusões tão coloridas quanto tristes... Posto que no fim, suas vidas vão ficar fáceis e medíocres antes que possam lutar pelo que querem. E eles vão acreditar que lutaram, mas na verdade sabem que tudo o que fizeram foi se adaptar a sua celinha de 2x2 enquanto corrompiam com mentira e podridão seus melhores dias.
Isso é dito por ser exatamente o que o cachorro velho nunca aceitou. Ao aceitar o desafio de enfrentar mais uma etapa de qualificação íntima ele percebeu uma de suas derradeiras verdades; verdade essa que esclareceu muito de sua ausência de hesitação chamada por muito de coragem dos tolos: Ele JAMAIS fez nada obrigado. Toda vez que se via obrigado a aceitar uma obrigação que seu instinto recusava, ele reagia muito violentamente. Era um sintoma. Um sinal alarmante de que cada vez que isso ocorria, ele estava sendo obrigado ao erro. Mas erro em que? O fato é que essa violência não era correta. Apenas os covardes travestidos de bonzinhos ou perfeitos idiotas agem de maneira definitiva sem saber as conseqüências a longo prazo de suas decisões.
As leves promessas se provaram falsas (mas que surpresa não?). Mas foi para o melhor, posto que essa tendência a acreditar em promessas era algo que deveria ficar junto com tudo o que deixara na cidade que abandonou. E assim o foi. O local que escolhera era no mínimo... diferente. E não pela síndrome da cidade grande, posto que o cachorro já fora vacinado contra a febre do entusiasmo anos antes. Mas havia algo diferente; a mera energia era diferente, não só a promessa de que agora teria no mínimo pra onde recuar e se recompor para o combate. O local continha promessas que não dependiam do ego estúpido de gente tapada e mimada. Claro, tais cânceres estavam presentes, mas bastava um latido para sumirem.
Crescer por crescer é o paradigma da célula cancerosa e o cachorro velho sabia muito bem disso. Ficara fácil pra ele reconhecer quem estava bom e eficiente na arte podre de ser ruim, sobretudo se essa tendência se manifestasse em si mesmo. Esse era um detalhe importante; a razão pela qual o cachorro velho sempre se menosprezou estava no fato de sua alma o reprovar. Mas... como? Tipo, sua.... ALMA estava reprovando sua racionalidade? Antes de pisar nesse novo tabuleiro onde ele não era mais mero peão ele havia tido provas. Provas de que havia algo além do que suas assim chamada sabedoria, arte e ciência conseguiam contemplar. Seria possível?
Logo certas coincidências começaram a se repetir, e repetir. Se a coincidência se torna tendência, ela não mais é coincidência. O acaso prima pela exceção,e não pela regra. Como sua imaginação poderia falar tantas coisas antes dele adormecer que ele não só não sabia, mas que se confirmaram? Se estava enlouquecendo, sua loucura pareceria mais consciente que ele próprio. Sua maior lição de humildade estava para começar, posto que só o ego daquele que sabe que é passageiro é capaz de negar o eterno. O cachorro velho tinha motivos o suficiente para deixar de acreditar na besteira de tentar controlar seu mundo. Ele tinha sim escolhas, e as estava fazendo. Mas ele também alem de mão era peça no tabuleiro. E era reprimido cada vez que tentava dar o cheque-mate, como se esse não fosse o objetivo final daquilo que ele era arrogante o suficiente para chamar de jogo. Se um jogo era, não era pra ser.
Palavras bonitas só servem pra maquiar a verdade se a mesma precisa de maquiagem. Só tem direito de ser orgulhoso quem tem do que se orgulhar. O cachorro velho era cachorro velho por que não tinha. Vencer desafios é fácil; saber pelo que lutar não. Os acasos que acasos não eram logo o encaminharam para seu caminho de fato. E só o conseguiram por que o cachorro finalmente se permitiu.
Não se pode de fato revelar o que houve e como começou posto que fazem parte de um mistério; não aquilo que está por se revelar, mas sim por que sua natureza é mistério. Uma ordem muito superior a racionalidade, não por ser ilógica, posto que mesmo a lógica é falha ao observar argumentos paradoxais mas ainda assim manifestos. O cachorro velho finalmente entendeu. O que lhe apareceu ao acaso havia sido planejado, e as forças que se manifestavam nele não eram ilusões de sua percepção, como todos os cínicos alegavam com medo de admitirem também serem peças no tabuleiro. Ele percebeu que tudo o que via, sentia, previa e fazia desde criança era real, não fantasias... as quais ele chegou a enquadrar até mesmo o amor.
Ele não era comandado, mas sim guiado quando se permitia. Os sinais agora eram claros, e ele não os aceitava por precisar de muletas ou de amparo, mas por que não havia como negar o que estava presenciando. Se fossem sua imaginação, então sua imaginação era mais real que fértil. A filosofia não era uma arte que podia se enquadrar em sua vida, mas sim um conhecimento que contava a história do pensamento; pensamento esse que forçosamente moldara o mundo em que vivia. E a doutrina que agora se apresentava a ele oferecia respostas a ele que não só explicavam tudo pelo que passara, mas oferecia também uma chance de fazer aquilo que ele sabia que era sua missão: Ajudar a quem precisa.
Logo, passada sua vaidade, ele pode ter a chance de finalmente se regenerar. Regeneração essa que não poderia vir de nenhuma outra lógica, posto que não era nem nunca fora seu ego ou sua racionalidade que fora ferido, e sim sua essência. Aos poucos tudo foi se acalmando, ficando finalmente e verdadeiramente sereno. Não mais das circunstâncias dependia seu futuro e sua felicidade, e sim de sua capacidade em se não complicar e deixar fluir por si toda a energia que ele sempre tivera o dom de manipular, mas inutilmente tentou manipular em favor de seu ego, nunca de si próprio. E não, o ego e o ser não são a mesma coisa. Ego é uma pequena parte da realidade de se estar vivo que subverte e desvia a energia para fins estúpidos.
As lembranças eram reais, contudo, eram de outra realidade. Uma realidade enfrentada por sua essência a muito tempo atrás. Muito mesmo, mais do que ele gostaria de admitir, afinal, esse tempo era a prova da gravidade de seus erros. A razão pela qual ele era, ainda que intransigente, incapaz de mal ou vingança era justamente por que ele foram MUITO capaz disso antes. E o motivo pelo qual ele não podia não só negar ajuda mas ia até os necessitados é simples: Ele havia sido a causa de problemas (para usar de um absurdo eufemismo) em proporções homéricas. Tudo que o cachorro velho então era não passava de reflexo do que havia feito. Portanto, karma, em seu mais intenso nível. Intenso, pois sua responsabilidade é então de fato colossal; ele não podia remediar o mal feito já que os tempos eram outros, mas teria que trabalhar num espectro que era o exato oposto do que havia feito com tanto talento e verve. Seu sofrimento ocasional ocasionado por si mesmo. Contudo, a culpa se mostraria uma cilada ainda maior mais adiante.
Sua disciplina marcial o fizera mais consciente de que a violência é apenas uma demonstração animalesca de ignorância, em que guerra não fazia ninguém grande. Portanto não era passível de existir algo como um “grande guerreiro”. Por extensão, ele passou a negar a idéia de “bom combate”, e estava redondamente enganado. Sua doutrina, assim como a nova arte marcial a que passou a se dedicar demosntrou que o bom combate é interno antes de tudo, depois de manifesta no externo com intuito de harmonização da situação, não na derrota incondicional de um inimigo. E que ter inimigos é se render a negatividade de maneira tão solicita quanto solicitar da negatividade qualquer benesse para o ego.
Esse capítulo acaba, mas não junto com o ano ou com algum ciclo e sim no inicio de um. “Cessem do grego e do troiano” todos os versos macerados. Cessem os debates invisíveis com prisioneiros apagados de argumentos e chances de redenção. Cessem as dores do passado, pois agora são entendidas e dominadas. Que se acabem os ouvidos à tolos que se acham detentores das lógicas que regem a vida, posto que se realmente as detivessem, não precisariam divulga-las para serem reconhecidos por roedores de baixa índole. O escudo fora levantado. A flecha que representava desde sempre o destino do cachorro velho tivera seu curso corrigido. E a ascensão pode finalmente começar, rumo a algo superior.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Queda e ascensão de um cachorro velho

Capítulo 3 – O Luto e o Anjo.

“Sabe, não consigo meter na cabeça como alguém pode dizer: ‘Sou fraco’ e continuar assim. Afinal se reconhece a fraqueza, por que não luta contra ela, por que não treina o caráter? Sabe qual foi a resposta? ‘Porque é muito mais fácil’. Fiquei decepcionada. Fácil? Quer dizer que um vida inútil e falsa é uma vida fácil? Não me conformo, isso não pode ser verdade, não deve ser verdade, as pessoas podem facilmente ser tentadas pela inatividade...”

Anne Frank, aproximadamente um mês antes de ser capturada pelos nazistas.

Esse conto desse cão, mais do que um mero registro, fala sobre erros irreversíveis e escolhas permanentes. Não faz diferença quem cometeu os erros ou fez as escolhas.
O tempo seguiu sem nenhuma promessa ao cachorro velho. Nenhuma busca ou esperança. Só uma resignação de cinza e névoa. Sem mais falas fáceis e atos falhos. Sem perseguir, ser vigiar, sem nem querer saber. Apenas mais um período que prometia calvário; não por se vitimar, mas por que o fim do seu desafio teria de ser superado independente da dor de qualquer realidade.
Ainda que não pareça lá muito “justo” o que havia ocorrido no ano anterior, o cachorro sabia que não tinha ninguém a culpar. Se o fazia era por que o trauma quebrara algo nele. Naquele mesmo ano anterior, o Anjo Quebrado disse-lhe algo que piorou sua situação:
-Se você não tivesse se afastado de mim, tudo teria sido diferente.
Cruel. Ainda que não intencional. Isso mostrou a ele o peso REAL de suas escolhas, e quão irreversíveis elas são. Ele não se arrependeu de se afastar dela na verdade, mas compreendeu todo o necessário sobre causa e efeito que poderia compreender no momento.
Seu último ano ali começara, e ele apenas queria que acabasse logo. Não por querer fugir, posto que não havia como se esconder de si mesmo. Só os piores covardes tentam tal coisa, posto que a única ‘possibilidade’ de isso ocorrer é exterminando seu próprio ser. Claro que essa alegada possibilidade alem de medíocre, fraca, estúpida e infantil é completamente falsa. Matar a si mesmo não acaba com a dor; muito pelo contrário. Todas as dores da vida tem um tempo e duração, posto que apenas a matéria é submetida ao tempo. Se condenada ao eterno, a dor simplesmente durará... Pela eternidade. Ele apenas queria terminar o que havia começado e ir-se embora dali. Fez planos e traçou novos objetivos.
O cachorro seguiu seu ultimo tempo ali amargo, cínico e desiludido. Apenas procurou aproveitar seus últimos tempos para pensar e se dedicar a sua vocação. Nunca mais ouvira falar do sorriso e da melodia que tivera de abdicar. Não faria sentido perseguir. Foi quando um verso de Shakespeare retumbou em sua memória:
“O que há num simples nome? O que chamamos rosa com outro nome não teria igual perfume?”

O que começou aconteceu como tinha de acontecer e não aconteceria de outra forma. Quando ela apareceu não pareceu diferente de qualquer outra pessoa. Fez contato com ela por conta de seu ofício, não vontades ou desejos. Mas o contato, ao invés de ter um tom formal tomou um rumo de afinidade pura e simples. No dia seguinte se encontraram para se divertirem. E se divertiram. Não com sofreguidão, não com paixão incontrolável e absoluta. Mas finalmente serena. Quando em tempo de se despedirem, ficaram mais tempo juntos. Juntos, em baixo de um cobertor. Sem nada de malícia, sem nada de carnal. Apenas assistindo e aproveitando a companhia um do outro.
Seus apelos foram ouvidos. Ironicamente, o mesmo nome, mas não a mesma pessoa. O nome não era importante, então mantido foi. Não teria como ter sido a outra de mesmo nome; não era certo e um não estava no caminho do outro. Foi quando os primeiros indícios de que algo realmente além do natural observável estava ocorrendo. Ela tinha medo; não tinha experiência nisso. Mas ela tinha calma, serenidade e muita inteligência. Estava fora de sua zona de conforto, mas desde o inicio gostara dele. O cachorro velho estava também quebrado, mas a vida lhe dera um anjinho que não estava.
O tempo passou. Reencontraram-se e foram novamente aproveitar seu companheirismo recém-descoberto. No meio disso tudo... um carinho, um abraço e um pedido de um beijo. Desajeitado foi, mas foi como tinha de ser. Não foi sujo e traiçoeiro, como se fosse dado a contragosto ou dado ferindo alguém. Mas ela chorou. O cachorro não entendeu, não queria jamais magoar o anjinho. Mas sabia, a partir daquele momento, que seu luto e solidão estavam terminados.
O bem-estar do cachorro velho dependia de um equilíbrio ainda tênue; ele não queria rever a Lua outra nunca mais. Mas essa clemência ele não gozou. No local onde ele ia para se preparar um dia ela apareceu. Rever aquela que o havia quase destruído fez muito mal a ele. Foi-se embora aquele dia, se isolando. Isolando mas não escondendo posto que o perigo vinha de dentro; alguém que estivera bem dentro de seu coração forçara sua saída fazendo um buraco em seu ser. Mas não temia o belo anjinho.
O anjinho lhe perguntou: por que não veio até aqui? Isso confundiu o cachorro velho. Não mais estava ele acostumado a quem cuidasse e se preocupasse. E foi até ela e perguntou: O que espera de mim? Ela apenas respondeu que não queria se envolver. O cachorro aceitou. Contudo, o anjinho começou a ser a melhor companheira que ele já havia tido, e por muito. Um dia, após ela dormir em sua casa (apenas dormir, o que mostrava que não era desejo carnal que os motivava), ele percebeu que estavam envolvidos além do que ela havia previsto. Então a chamou pra conversar e sentenciou: - Temos de nos afastar. Se sua vontade é a de não se envolver, acho que estamos ultrapassando limites.
A resposta ainda trás lágrimas aos olhos do cachorro velho:
- Quer namorar comigo?
E foram embora unidos. Ele não teria como recusá-la. Ela o trouxe de volta de toda a dor que sua antecessora causara nele. Não era perfeito, não era intenso com o fim do mundo. Mas era verdadeiro. Nela ele realmente poderia confiar. Com ela ele realmente podia contar. Não que a Lua outra não tivesse sido companheira, leal (ao menos antes do fim) e esforçada. Mas com o anjinho aquele cachorro podia ser livre. Não tardou para ela dizer que o amava. Dias depois, sobrepujado pelo carinho dela ele disse o mesmo.
É importante lembrar do anjinho dessa maneira. Posto que ainda que ela tenha deixado de ama-lo ao fim daquele ano, ela foi a ultima pessoa que fez por merecer. Seguiram unidos. Um bastava ao outro. Não precisavam sair ou ir a lugares. Estarem juntos bastavam aos dois. Foi quando uma das maiores funções cumpridas pelo anjinho começou a se manifestar. Ela tinha alguns traumas e sensações. Ela parecia as vezes afetada por coisas que afetavam a ele também.
Um dia, enquanto compravam coisas no dia do aniversário do anjinho, ela sentiu algo ruim. Ao chegarem à casa dela, ela havia sido assaltada. Ver a dor e o medo nos olhinhos azuis de seu anjo o corroeu mais do que tudo. Tudo mesmo. Mesmo a dor que enfrentara por ter sido trocado pela Lua outra não se comparava ao desespero e desamparo de ver alguém que o amava e que ele amava sofrer. Mais uma lição sobre si mesmo que o anjinho o ensinara. E ele não a deixaria correr perigo. De que adianta cachorro ser se nem ao menos pudesse proteger a nova dona de seu coração? E foi assim que ele a levou para morar com ele.
O tempo que passarem juntos em sua casa foi, pra dizer o mínimo, sublime. Foi a primeira vez em sua vida que ele percebeu que poderia passar a vida inteira com a mesma pessoa sem se sentir preso. Se o anjinho não foi o amor da vida dele, no mínimo foi o amor que mais valeu a pena viver.
Mas como dito, ela sentia coisas assim como ele. Ao acompanhá-lo a locais onde ele faria sua obra de conclusão de seu preparo para sua vocação, coisas aconteceram. Coisas completamente inesperadas. Realidades se manifestaram nela. Ela finalmente lembrou-se. Desde criança ela sentia, via, ouvia, mas com medo ignorava. Ele também, mas só no ano seguinte teve todos os esclarecimentos necessários. Essa era sua missão para com ela.
Mas o tempo passou, e da metade para o fim daquele ano os corações, humores e disposições foram se modificado. Desentendimentos começaram. Ele ainda a amava, mas com o tempo tornou-se intolerante sem razão aparente. Aparente. Ainda assim eles viajaram juntos, sorriram juntos, viveram juntos. Mas ele sabia, como era de se supor, que algo estava diferente. Ela estava ficando distante e ele não conseguia evitar.
Isso teria um fiz, posto que os planos do cachorro velho iriam forçosamente afasta-los. Ela quis terminar, ele não quis aceitar. Continuaram juntos. Então deu-se fatos que hoje ele reconhece; mostram o quanto o anjinho mereceu tudo de bom que passaram juntos, e como cada palavra rude dirigida a ela foi o maior dos pecados. Ela não o deixou, ela não o abandonou nos momentos difíceis mesmo quando ele até chegou a merecer. Ela não mais o amava da mesma forma e ainda assim ficou com ele. O anjinho era a diferença, o oposto da Lua outra. Ela se manteve onde a Lua outra se foi. Isso não faz da Lua outra ruim ou errada como já foi dito. Mas o anjinho era sim mais certa.
As energias descontroladas e sujas do lugar e do passado do cachorro velho tornaram inevitável a separação. Se soubesse então o que hoje ele sabe e domina, não teria perdido ela. Mas não era assim que estava escrito. Ele, ainda fraco e tolo tentou de toda forma evitar. Repediu o erro cometido com a Lua outra, de insistir e suplicar. Não foi ouvido e quanto mais insistia, mas vilipendiado ele era. Ele praguejou por estar passando pela mesma situação.
Dessa vez não era tão merecedor de dor. Mas algo estava diferente. Era a mesma situação com pessoas totalmente diferentes. Algo não fazia sentido se visto pelo mesmo ponto de vista. O anjinho não era igual a inconstância da Lua outra. Era ele o eixo disso, mas como? Se havia algo que ele queria evitar com toda a sua alma era passar por isso de novo. Alma. Era esse o ponto o tempo todo. Ele foi avisado do fim assim como fora anteriormente. Avisado, mas como? Como ele podia sentir a presença de pessoas –que estavam e não estavam ali-? Como ele podia adivinhar o que as pessoas fariam ou estavam pensando com dias de antecedência? Por que, desde sempre, ele se via obrigado a ajudar quem quer que precise? E como ele conseguia ajudar as pessoas apenas estando perto? Ele não era melhor, ele não era especial. Não havia nele nenhum tipo de poder reconhecível. Posto que se poderes tivesse, isso compreenderia –poder fazer-, o que ele sabia que não podia.
Enfim, o anjinho se fora, e ele também. Terminou sua missão onde estava e podia ir embora. Triste sim, pois sentia falta de seu anjo. Mas ele finalmente poderia começar uma vida nova, num local novo, em um ano novo e num novo tempo. Toda a podridão e falsidade que agüentara não precisariam mais ser engolidas. Poderia ficar pra trás tal qual excremento e vômito. Esse capítulo termina junto com essa parte da sua vida. Tão sofrida, mas tão firme. O que estava por vir ele nem sonhara. Não poderia imaginar que de fato sua cura estava em si mesmo; nas várias partes de si.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Queda e ascensão de um cachorro velho

Capítulo 2 – A queda.

“And even though it all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah”
Cohen

Não existem meias palavras para narrar esse capítulo. O fato é que, ainda que o cachorro velho tenha passado pelo muito de terrível que a vida tem a oferecer, nada poderia prepará-lo para o que estava por vir. O por vir tende a ser incerto sempre, mas sempre se espera o melhor. Por conta disso, quando o pior aparece é sempre tão devastador para os despreparados.
Essa parte da história começa como muitas outras histórias, mas acaba como poucas. Foi o acaso que ativou o caminho. E foi o acaso que se encarregou de arrastar o cachorro de maneira que sua vontade de nada valeria. Se por máquina fosse conhecido, sua realidade compreenderia muitos eixos. E o eixo em questão não pode, por inúmeros motivos, ser nomeado por seu nome original. Como aquilo que os arcanos maiores usam para expressar incerteza, era uma Lua. Será chamada de Lua outra.
Lua outra não era aquilo para qual o cachorro velho tendia a uivar. Estava fora de seu nível nas mais variadas formas. Não pelo cachorro ser superior, por que convenhamos: o baixo sempre foi ele mesmo. Essa Lua era como muitas a seus olhos, muitas que nunca lhe foram compatíveis. Claro, hoje se sabe o que de fato motivou o encontro, mas até então o cachorro nada sabia.
A razão pela qual essa parte é tão importante se deve ao fato de ter sido realmente devastadora. Ainda que o cachorro velho tenha conseguido atingir sua paz não muda o fato de que nunca realmente parou de doer. Não pelo fim ruim, mas pela falta da parte perfeição. A razão pela qual a plenitude e a felicidade devem vir de dentro é justamente essa. Se a perfeição depende de vontades ou destinos outros, ela forçosamente precede muita dor.
Enfim...
Ainda que novo, foi rápido e forte. Começou da maneira mais improvável e impessoal possível em nossa era. E ainda assim, foi tão intenso quanto se poderia ser. O cachorro velho e a Lua outra sentiam como se já se conhecessem há séculos, o que anos depois se mostrou verdadeiro. Mas isso não importa. O belo desse feio conto é que ambos eram prisioneiros: Ele de seus débitos do passado e ela de sua própria realidade.
Não se sabe se hoje a Lua outra esta livre ou não, e sinceramente não nos compete mais descobrir ou auxiliar. O fato é que se amaram. O fato é que haviam esperado um pelo outro por anos e anos e não tardou para se reconhecerem mutuamente. E assim foi; separados ainda que unidos de uma forma que -parecia- indissolúvel. Essa era, para ele, a prova de que as canções podiam ser reais. Juntos e separados suportaram a distância e fizeram planos, muitos deles. Amaram-se de todas as formas profundas e permanentes, das que deixam marcas. Todos os dias celebravam sua cumplicidade que aparentava quase sobrenatural. E quando podiam, não importava onde fosse, amavam-se. Não só carne e sangue, mas expressão e sofreguidão, como se ao invés de semanas tivessem ficado séculos separados. Ao menos assim parecia ao cachorro velho.
O despotismo estúpido que os separava ia além da figura de carrascos. Tempos depois se mostrou presente também no coração de ambos. E seguiam, cheios de altos e baixos causados por ambos, mas os quais hoje o cachorro velho só pode apontar os seus. Houveram momentos em que ele, sabedor de suas dívidas se perguntava: Será que eu mereço algo bom assim? E a Lua respondia com demonstrações de amor que o faziam achar que não seria capaz de retribuir. Mas...
Muitas foram as quedas daquela época. Aquilo que o cachorro quis para sua vida foram desmerecido por muitos, o que o desapontou. Ainda que nada tivesse de relação com seu romance com essa Lua outra, isso o magoou. E a Lua, motivada por um mar de incertezas oriundas de sua natureza e seu passado, o deixou num momento de extrema necessidade. Amargou sozinho não só seu desapontamento com seu ofício, desapontamento esse hoje remediado, mas também a comemoração de seu nascimento. Esse deveria ter sido aviso suficiente para o cachorro entender que as Luas são ilusões; elas tem fases e irão embora assim que o sol, fonte real de sua luz, tomarem seu lugar no céu. Mas amor verdadeiro não morre. Ele pode até adormecer ou ser atirado ao esquecimento até desaparecer, mas não pode ser ferido até a morte. Assim eles reuniram.
Eles juntos e lutando contra as adversidades deveria significar que amar vale a pena, que a perfeição merece esmero, mas não foi assim. Não tardou para a crueldade e desequilíbrio de cachorro machucado ativasse as flutuações inerentes à Lua. Logo, palavras rudes foram ouvidas do céu à terra e vice-e versa. E os instintos dele começaram a avisá-lo de que algo estava errado. Que havia algo que ainda não tinha vindo à luz, e que deveria ter sido iluminada.
O amor, antes fonte de perfeição ainda que sob condições por vezes desesperadoras tornou-se fonte de desgostos. Hoje se admite que tudo poderia ter sido resolvido, mas não foi assim. Muitos imaginam como poderia ser a vida se pudessem voltar ao passado com a experiência e compreensão conquistadas. Amargam como poderiam ter agido diferentemente se lhes fosse dado o dom da visão de que hoje desfrutam. Mas não é assim que a vida funciona. A arte de bem viver reside em estar calmo, consciente, limpo e firmado. Direcionado de coração aberto e doutrinado por muita reflexão sobre a verdadeira natureza que o motiva. E isso é muito difícil.
O cachorro dependia tanto da Lua outra para ter direção que logo os desequilíbrios alçaram proporções homéricas. Sua fúria insensata e decadente se voltou a Lua. Se entenderem então passou a depender exclusivamente de amor, que com o tempo começou a flutuar no coração dela. Seguiu-se o tempo, e a sensação de algo errado começou a ficar extrema no espírito do cachorro. Tendo de ir para longe devido a circunstâncias incomuns, eles ficaram separados por muito tempo. Esse tempo serviu para levar os conflitos a pontos perigosos, até que o cão, após uma ofensa que ele não foi capaz de relevar ainda que tola, pediu tempo para si mesmo.
Então ele foi até o local de seu nascimento. Tentou lembrar de onde vinha a felicidade que conseguia experimentar quando ainda era filhote. A felicidade simples e verdadeira que seu universo particular lhe conferia. Andou muito pelas velhas ruas, garimpando lembranças de muros e casas que quase não eram mais as mesmas. Recordou-se de dias e dias de infância despreocupada e meio mística, onde então só restara gente morta e sua árvore... Uma arvore plantada por ele quando ainda bebê e que então se tornara forte e firme, assim como ele deveria ser.
Ele voltou, ainda em tom de arrogância que lhe era difícil de vencer, para junto de sua Lua. Foi então que houve a queda. Ela não mais o queria; estava resoluta disso. A Lua não era mais sua. De nada adiantaram os apelos; quanto mais suplicava com seus uivos surdos, mais ela o vilipendiava, como se não fosse mais a mesma. Cada palavra sua fora respondida com o máximo de desdém. Irredutível, como se ele nunca tivesse relevado ou aceitado nada nela.
Ele não dormiu nessa noite. Voltou para o mais perto dela que podia, e repetiu apelos, arriscou beijos e palavras doces que não só não tocaram seu coração mas pareciam dar forças a sua repulsa por ele. Finalmente a Lua outra o estava tratando com o desprezo que suas iguais dispensaram ao cachorro velho por toda a vida. Em meio ao seu desespero ela foi aparentemente vencida pelo cansaço de uma luta contra uma insistência vinda de certeza desesperada. Mas ela agora o tratava com toda a frieza e indiferença do mundo. Não o ouvia mais uivar, não queria mais sequer saber dele. Logo ela mudou de idéia e o mandou embora.
O cachorro velho podia ter todos os defeitos da criação, mas burro ele nunca se deu ao luxo de ser. Ele sabia a tempos que algo estava fora de lugar, ou um lugar que não deveria estar. Sua intuição de animal velho começou a insistir que haviam coisas que ele deveria saber. Sinais haviam sido escritos. Indícios sempre levam à pistas da verdade, mas realmente essa verdade era então algo para o qual ele não estava preparado.
Todas as suas suspeitas eram verdadeiras. Ela o trocara, e o fez por alguém que a cortejava desde a época em que estavam unidos. Não esperou sequer um dia para ficar com ele. Isso praticamente matou o cachorro velho. Não que a Lua não merecesse ser feliz, mas o golpe fora tão poderoso que por um instante sua alma enlouqueceu de dor. Então, tudo o que o cachorro poderia fazer era exigir um pouco de verdade clemente, e foi o que ele fez. Ouviu dela toda a verdade inacreditável. Durante o tempo separados ela se entregara a ele enquanto o cachorro buscava entender melhor a si mesmo.
Algo estranho ocorreu; uma calma insana tomou conta dele enquanto falava com ela. A tratou de acordo com o tipo de pessoa que ela estava demonstrando ser para ele. Não mais a Lua, mas apenas uma luz já meio vacilante ante seus olhos cansados. Se ele tivesse sido capaz de manter essa calma, ele nada teria sofrido. Contudo, ele não conseguiu dormir aquela noite... Fora movido por uma força podre dentro de si que o fez em mensagem expressar toda a sua revolta e asco de cachorro com o orgulho ferido. Não conseguiu dormir aquela noite... tampouco as sete noites seguintes.
Ele não tinha pra onde correr, e cada vez que acordava ele se desesperava assim que se dava conta de que tudo que estava acontecendo era verdade e não mais um pesadelo. Estava vivendo um pesadelo. Infelizmente deve-se admitir que a dor dele fora colossal. Ainda que ele não tenha se entregue à coisas como depressão, a vida se tornou facilmente um inferno. O vínculo que os unira era forte demais para ele conseguir ignorar. Isso fez com que ele tivesse de amargar cada mísera sensação que ela desfrutava com ele.
Ironicamente, ele não se sentia traído ou trocado. Ele, mais do que qualquer coisa, sofria por ter de enfrentar absolutamente sozinho tal situação. Ele nunca teve a quem recorrer por que no fundo, mesmo com tanta morte em seu passado, nunca realmente precisou. E assim o tempo passou. A Lua um dia demonstrou pena dele, como se pena fosse alento. O fez para avisar que o outro tomara seu lugar e que ele nada significara. Na verdade nesse ponto o cachorro não mais queria de volta a chance de olhar para a Lua. Estava cego novamente, mais do que antes. Estava perdido e de alma doente, doença essa que ele nem sequer tinha o direito de permitir germinar, como hoje ele bem sabe.
Fez de tudo para apagar cada rastro e pegada da luz da Lua outra de sua vida. Tentou lavar de seu corpo, sua casa e sua memória cada traço, palavra, melodia ou objeto que tivesse relação com ela. Isso hoje mostra que tudo não passava de um apego absurdo, mas novamente: não se pode esperar que os olhos de hoje mudem as visões do passado.
O tempo após a isso não teve outro sentido senão de mais absoluto purgatório. Os romancezinhos que se seguiram não o regeneraram, apenas distraiam a dor do cachorro velho. Mas dor sem cura persiste. Não faz da Lua monstruosa pela dor de um cachorro. A monstruosidade real reside no mesmo lugar em que sempre esteve, mas agora não é a hora de elucidar. Ele os viu, ele os sentiu e tudo o que podia e queria fazer era saber se teria a chance de reaver sua paz e o perfeito da vida. Tal resposta ele só teria anos depois, mas também não é a hora de esclarecer isso.
Seguiram-se palavras. No inicio ofensas maquiadas para a Lua, mas logo tomaram rumo de inúmeras tentativas de tentar firmar os pés.
Logo ele buscou alento na idéia -igualmente ilusória- de amor no sorriso e na melodia de alguém que a muito não via. Ele passou a querer e a buscar, ainda que de uma forma infantil, covarde e pouco sincera esse sorriso. Como toda ilusão, seu ainda frágil ser estremecia cada vez que o sorriso brilhava. O tempo passou, promessas fúteis passaram. Numa noite bonita perto do natal eles se viram. E conversara. Muito. Mas ele apenas falava com ela como amigo, e ela retribuía a conversa com toda a sua luz e carinho. Assim que ele caminhou para a casa ele foi atingido por um golpe como de uma enxada: Se apaixonada perdidamente. Ele se deixou levar pela idéia, a idéia virou algo mais forte por falta de controle do cachorro velho. O estrago estava feito, posto que sua intuição era bem clara quanto a impossibilidade de consumar tal afeição.
Ele escreveu uma carta sincera a ela. Ela de nada tinha culpa e ao menos o cachorro não queria usá-la para tapar buracos e sim ser feliz com ela e vê-la feliz. Tanto era assim que escreveu a carta despedindo-se e desejando a ela todo o amor e felicidade que ela merecia. E assim foi. Se ele não podia ser feliz, que ela e mesmo a Lua pudessem ser. Assim acabou esse ano e esse capítulo. As promessas de amor eterno ainda iriam assombrar o cachorro velho posto que infelizmente, ainda que não tenhamos noção do eterno, nossas sentenças retumbam nele.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Queda e ascensão de um cachorro velho

Capítulo 1 - Compreensão

”Era um cão estranho, sorria sem motivo”

É plenamente feliz. Bem, hoje é fácil, é simples. Mas não foi sempre assim. Quanto mais inteligente ele ficava, quanto mais gente ele interagia, quanto mais longe ele ia, mais livre ele se achava. E achava errado. O libertino dito livre era na verdade uma falha endêmica; era cruel, arrogante e se deixava levar facilmente pela negatividade. Suas chagas, ao invés de tratadas eram cutucadas. O passado, ao invés de ser esquecido ou relegado a um ostracismo condizente com o que não mais serve, era constante e insistentemente lembrado. Era tão forte como todo o cão adulto, ainda que frágil como tudo que está fora de equilíbrio.
Assim ele era.
Ele via. Ele SEMPRE via e não sabia o que pensar. Ele sentia, mas negligenciava seu instinto em nome de um conforto estúpido. A natureza determinada pertencente a todos os da sua raça era mal-direcionada... Ele afastava, usava e descartava, se fazendo de injustiçado ao receber o troco da eternidade por sua falta de consciência. Era um sábio tolo, não um tolo sábio.
O fato é que o cachorro velho não estava pronto e ainda assim se metia a querer sentir e pensar os que os outros cães faziam por que podiam. Ele não. O acaso o surpreendia, mas ele logo estragava tudo e começava a favorecer o outro lado, o lado feio de todo caminho: a expectativa. Fazia planos cegos que iam muito alem do que sua visão tapada podia alcançar. E sim, você acertou... Ele se desapontava. E praguejava contra a eternidade por conta de suas próprias falhas de caráter. Existe um diferença simples entre esperança e expectativa: A expectativa é apenas desejar insistentemente o que se quer, sem se questionar ou refletir se de fato precisa ou é certo o que se quer. Já a esperança é o dom mais divino da existência dos cães: Não é esperar pelo que se quer, mas estar pronto pelo melhor sempre, não importando as adversidades.
Hahahahhahahahhahaha
E assim como todo ateu que é ateu por conta de uma covardia ao não ser humilde para aceitar que era submetido ao universo e não ao contrário, ele vivia na obscuridade merecida. Não que a luz compreenda ter fé ou acreditar em algo. Na verdade o escuro é condição, não situação. Vingança era um de seus estúpidos motes, mesmo sabendo que sua essência original o impedia de fazer tal coisa. Mesmo que tentasse, o máximo q podia fazer era magoar os que o queriam bem. Era o tipo mais sujo de dependente; o que alega ser livre e auto-suficiente. Era um cão raivoso. Uivava para luas erradas. E assim, a Lua Bonita se interpôs em seu caminho.
Lua Bonita soava como uma promessa de futuro bom que ele acatou com certeza. Apenas os tolos aceitam a certeza alheia quando a certeza de si mesmo é incerta. Era mentira, claro. Mas ele sonhou. Não tardou para a mentira esmigalhar sua perna traseira. Ele se recusava a acreditar em seus olhos, focinho e instinto. Vê?
Praguejou contra a Lua Bonita sem parar; manco se comprazia da penúria que a Lua Bonita teve de amargar, que infelizmente conta de sua natureza de malicia errada ainda amarga. Como todo cão que tenta escapar de seu conforto em nome de aventura, voltou com o rabo entre as pernas para sua pouca e distante certeza. Mas esse conforto não mais o pertencia e ele sabia disso. Mas usava desse conforto sem escrúpulos. Não seguia em frente e aprisionava os outros cães a sua vontade canalha.
Encare isso: Só recebe coisas ruins quem envia coisas ruins. Assim é, assim foi e assim SEMPRE será. O sempre tem peso especial para o cachorro velho nesse inicio. Só depois de muito amargar a própria ignorância ele mudou; e só o fez por que no fundo algo no eterno ainda ama seu uivar. Ele sabe que O Maestro o quer bem e o quer feliz, como quer a todos seus músicos. Mas...
Ele ainda era um fraco; suas forças eram desperdiçadas ao ponto de se anularem para não o exaurirem. E o cachorro nada podia fazer senão esperar por piedade, assim como todos os cegos como ele. De que serve um cachorro velho e cego, pergunto eu. Nada. Logo a lógica o fez encontrar um anjo; um Anjo Quebrado. Como se deram bem, e como foi fácil se apegar à idéia de algo que via o mundo assim como ele. E assim, o cachorro velho foi novamente seduzido pelo incerto. E novamente, se atirou do precipício dos tolos. Ele era um cachorro cego, e cachorros cegos e velhos não voam. Ele amargou a idéia de ser querido por algo ainda mais fraco e confuso que ele. Outro cão, um cão quebrado que nunca aprendeu a se concertar. Correu em direção a alguém que construiu em torno de si uma muralha retardada, tachando a todos que se aproximavam como parias iguais aos seus antigos carrascos.
E é claro, o cachorro velho falhou em sua empreitada. Não foi aceito e sim vilipendiado. Praguejou contra sua sorte novamente, olhando com um olhar de superioridade não-merecida para o Anjo Quebrado. Falou a todos o quanto fora injustiçado. Sim, hoje o cão sabe que não foi injustiçado -quase- nunca, mas não foi assim até então. Ele continuou caminhando, sem levar em conta a incrível sorte que tivera ao não ser preso dentro da muralha e por ter saído ileso de algo tão arriscado. Mas... como todos os cachorros velhos, cegos e errados, não tardou a aparecer para ele uma dívida. Esse curto primeiro capítulo termina quando o cachorro já deveria estar consciente, mas de consciente ele NADA tinha. Já era tempo de estar firmado, mas ele ainda era um cretino.
Seguia doutrinas boas. Tinha o coração direcionado ao bem... Mas o mal que fazia a si mesmo retumbava na eternidade como um tiro de canhão: o tipo de sinal que inicia todas as batalhas inúteis. O cachorro velho já havia conhecido o bom e o sublime da vida. Tinha inteligência, ainda que não sábia. E foi assim que ele se alistou para sua pior batalha...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Queda e ascensão de um cachorro velho

Prólogo

6
Senhoras e senhores da platéia,
declaro agora que,
salvo o útimo dia da minha vida,
posso recomeça-la infinitas vezes.
Todas as vezes que o destino obrigar
ou a alvorada fizer brotar.
5
O que de imortal em mim que matei não morreu
Ele não morre, ele ri...
Cantarola quando ninguem ouve
Troca de roupa e de instrumento
E se curva pro maestro da eternidade.
4
O andarilho que flutuava no todo
Livre sem tempo ou distância que segurasse
Ou gaiolas que o interessasse
Parou pra ver a rosa e alí ficou
3
Se nada é eterno exceto a dúvida, a alma
e minha própria eternidade
por que eu deixaria as chances passarem?
2
Só tem medo do fim quem muito deve
Ou que no fundo sabe que não viveu
1
Essa vida se acabou e vou começar mais uma.

E você?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Pessoas vem, pessoas vão

Pessoas vem, pessoas vão
De algumas a gente lembra, de outras não sei, não me lembro mais
Algumas lembranças a gente deixa, outras apaga.
Algumas pessoas não deixam nada de que se lembrar.
Algumas se afastam, algumas se aproximam
Algumas machucam quando vem, outras machucam quando vão
Outras não são boas e ruins o suficiente pra te machucar.

Por que certos pensamentos cínicos e simplistas se difundem como um vírus enquanto cada reflexão puramente interior e pessoal parece um parto pra tanta gente?

sábado, 13 de agosto de 2011

Les Mots

Approchez, approchez Mesdames et Messieurs
Car aujourd'hui grande vente aux enchères
Dans quelques instants mes deux jeunes apprentis saltimbanques
Vont vous présentationner des ... mots

Un mot pour tous, tous pour un mot
Un mot pour tous, tous pour un mot

Des gros mots pour les grossistes
Des maux de tête pour les charlatans
Des jeux de mots pour les artistes
Des mots d'amour pour les amants
Des mots à mots pour les copieurs
Des mots pour mots pour les cafteurs
Des mots savants pour les emmerdeurs
Des mobylettes pour les voleurs

Aujourd'hui grande vente aux enchères
On achète des mots d'occasion
Des mots à la page et pas chers
Et puis des mots de collection

Un mot pour tous, tous pour un mot
Un mot pour tous, tous pour un mot

Des morues pour les poissonniers
Et des mochetés pour les pas bien beaux
Des mots perdus pour les paumés
Des mots en l'air pour les oiseaux
Des mots de passe pour les méfiants
Et des mots clés pour les prisonniers
Des mots pour rire pour les enfants
Des mots tabous pour l'taboulé

Aujourd'hui grande vente aux enchères
On achète des mots d'occasion
Des mots à la page et pas chers
Et puis des mots de collection

Un mot pour tous, tous pour un mot
Un mot pour tous, tous pour un mot

Des mots croisés pour les retraités
Et des petits mots pour les béguins
Des mots d'ordre pour les ordonnés
Des mots fléchés pour les Indiens
Des momies pour les pyramides
Des demi-mots pour les demi-portions
Des mots courants pour les rapides
Et le mot de la fin pour la chanson

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